A narrativa e ritmo peculiares,
diferente das obras ocidentais com as quais nos acostumamos, garantem a
sensação de monotonia e repetição típicas da rotina. Aqui não há epopeias ou tragédias
pessoais carregadas de emocionalidade, de conflitos evidentes ou um enredo
marcado pela excepcionalidade que desperte a curiosidade pelo intenso, pelo
incomum. Aqui há a relação com o dia-dia, com o inanimado do dia-dia, a cama dobrada,
a escova de dentes, as chaves, a máquina do café, objetos tão habituais quanto
íntimos para personagens de grandes centros urbanos que somos. As palavras, as
relações humanas são escassas e talvez por isso o expectador se sinta, como o
colega ajudante de Hirayama, incomodado com o silêncio, com a ausência de palavras.
Mas a rotina comunica e,
comunicando, questiona, deixando-nos intrigados a respeito desse personagem
enigmático, sorriso quase sempre tranquilo no rosto, uma sensação de paz,
isolamento e uma busca obsessiva por manter a rotina igual, fazer sempre as
mesmas coisas. Dias se repetem, a semana se repete, personagens entram e saem,
provocando alguma perturbação na ordem do dia, alguma proposta de enredo, de
conexão, que venha a modificar a dinâmica do protagonista, que venha a lhe
explicar os motivos e as razões de essa dinâmica se mostrar como se mostra e...
nada. Talvez a proposta seja então de contemplar o silêncio, buscar ouvir o que
ele cala – ou tenta calar.
A rotina se esforça por manter-se
implacável o personagem principal do enredo, a última cena sugerindo, no
entanto, haver muito mais por trás do sorriso tranquilo e de paz quase constante,
o rosto não podendo disfarçar ali as expressões de dor e sofrimento. A
sequência dos eventos, a sucessão fugaz dos personagens, parecem ter produzido,
então, alguma perturbação dessa rotina. O filme entrelaça a repetição obsessiva
dos dias com essas pequenas variações eventuais. Expressões sobre a
transitoriedade dos cenários na cidade dialogam com as sombras que, somadas,
não se alteram: ‘as coisas mudam, afinal’?
O analógico das fitas cassetes, da
câmera fotográfica ainda com os negativos por revelar, das fotos e dos sonhos do
personagem em branco e preto, dos livros usados, tudo deixa pouco espaço para o
novo e refletem um Hirayama resistente às mudanças, resistente à passagem do
tempo, recusando ver-lhe os sinais, por exemplo, na demência do pai. Ele não
pôde recusar, porém, quando chega ao restaurante habitual de suas folgas e o
encontra fechado, a mulher que o cortejava abraçada a outro, prova, sentida por
dentro em seu íntimo, da instabilidade, da insegurança, da incerteza das coisas.
Hirayama compra bebidas e cigarros – um ‘rasgo de novidade’ no cotidiano – para
tentar ‘engolir’, ‘tragar’, a turbulência emocional sentida. Ali se encontra
com outra expressão de transitoriedade, um homem doente terminal se despedindo
da vida. Com ele, brinca de ‘sombras’: ‘as coisas mudam, afinal’?
Difícil não recordar as teses
freudianas sobre as características da ‘personalidade ou caráter anal’,
um conjunto de traços comportamentais que Freud associou às vivências do bebê
durante seu período de aprendizado esfincteriano. O prazer corporal e a
sensação de poder experimentados no ato de ‘reter as fezes’ se transformam
posteriormente em caraterísticas pessoais desse tipo de caráter. Vê-se então
uma busca pela ordem, rigidez comportamental, apego às rotinas, autoexigência
pessoal (Hirayama se mostra bastante perfeccionista com seu trabalho) e
dificuldades com o ‘desapego’. O gosto do personagem pelas plantas, o
colecionismo, as fotografias de praticamente a mesma imagem da copa das árvores,
organizadamente retidas no armário, sugerem a preferência por ‘objetos mais
estáveis’, que se permitam guardar e possuir sem maiores oposições ou
conflitos. O isolamento pessoal e o apego ao controlável é tão marcado, a ponto
de ficar ilustrado no clássico ‘jogo da velha’, um jogo, como sabemos, dos mais
previsíveis, jogado com alguém ausente das cenas, alguém sem imagem e sem nome.
Voltando aos conflitos, eles aparecem mais ‘fora de Hirayama’, nos outros que
lhe cruzam a rotina, seu jovem e apaixonado colega de trabalho, a namorada do
jovem, os conflitos mãe-filha entre a irmã e a sobrinha, nas histórias dos
livros que lê, das músicas que ouve. Para muitas pessoas, as emoções são mais
facilmente digeríveis assim, quando experimentadas pelos outros, o sujeito ‘gozando’
em estar apartado das mudanças e, assim, tentando manter a fantasia de um mundo
estável e controlável. Esse chamado ‘caráter anal’ também dialoga com as
recorrentes cenas de limpeza de banheiros e vasos sanitários, provavelmente não
sem sentido, o trabalho pelo qual Hirayama levanta cedo, com enorme diligência,
todos os dias.
A repetição é a marca do
cotidiano e encontra na psicanálise conceituação condizente a seu valor para o
psiquismo. Freud falava em uma compulsão a repetir, associando-a, num
primeiro momento, à fixação da libido a determinados pontos do desenvolvimento
psicossexual, como a fase anal-retentiva mencionada. Em um segundo momento,
relacionou-a a uma tendência de a mente sempre buscar um estado mínimo de
tensão, de ela parecer se esforçar por viver as mesmas coisas e, assim, evitar
perturbações mais agudas e intensas. Seria uma espécie de pressão, de força
mental que objetiva o silêncio, o conhecido, o estável. A rotina de Hirayama deve
mesmo querer calar alguma dor, alguma tensão indisfarçada na rigidez, no
isolamento, no silêncio... os pequenos eventos sucessivos, os personagens que
entram e saem - e não ficam – a história familiar não contada despertam-lhe turbulências
momentâneas, as quais tenta sucessivamente ‘apagar’ nos sonhos em branco e
preto e na recorrência dos dias. Buscam-se desmanchar no detergente das
privadas, Hirayama fazendo questão de ter ‘o próprio material de limpeza’,
preocupado com a eficiência de seu ‘trabalho’, embora o êxito mental de apagar
os efeitos desses eventos seja apenas parcial.
Outra imagem onipresente no filme
são as ‘sombras’ - nos sonhos, nas fotografias reveladas, no jogo de sombras
com o doente terminal. A compulsão a repetir, essa força mental, se faz
representar também nessa imagem da sombra, uma imagem opaca, que contrasta com
toda diversidade potencial à vida, tão restrita num cotidiano rígido, monótono.
A sombra, tal como o sorriso plácido de Hirayama, esconde o colorido emocional,
alguma crise não dita, uma espécie de colapso apenas suspeitado, sob a
aparência de uma ‘normalidade’ e um funcionamento quase maquinal. As chamadas ‘normopatias’,
condições nas quais a aparência de normalidade e vida funcional, engendradas
por uma rotina de atividades e de desempenho, dão a impressão de bem-estar
pessoal e ausência de sofrimento. Isso, no entanto, às custas do aprisionamento
do desejo e da subjetividade – daí também mais um sentido para a imagem
‘sombra’.
Pergunto-me se o diretor nos quis
mostrar Hirayama como um espelho de nossas vidas, sombras cada vez mais
isoladas, sensíveis demais para encontros mais íntimos, cada vez mais dependentes
de relacionamentos virtuais, superficiais, à procura de diagnósticos e de
remédios para dormir e para acordar, à procura de atividades que nos assegurem
de nosso valor pessoal e desempenho, para estarmos escondidos do sofrimento, da
dor psíquica, de nós mesmos. Nesse sentido, cabe reforçar o lugar da
psicanálise em sua clínica – destaco para distingui-lo do espaço
exclusivamente teórico – que oferece uma oportunidade relacional diferenciada –
talvez como a conversa com o doente terminal, as brincadeiras com as sombras
no fim do filme - para o sujeito sentir, vivenciar, refletir o desejo, com
todas as vicissitudes e sofrimentos inerentes a ele, e assim desenvolver,
complexificar sua subjetividade.
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