segunda-feira, 5 de maio de 2025

THE FALL


‘The fall’ traduz, em belíssimas imagens do cinema, o poder de contar histórias e as razões pelas quais elas são contadas. Roy, o contador, um homem maculado pela perda e traição da mulher amada e, mais recentemente, por um acidente de trabalho que o condena, por longo termo, a uma cama de hospital, encontra Alexandria, a menina de 05 anos do braço quebrado, conhecida do hospital inteiro de suas curiosas perambulações. Do encontro, se vão tecendo as cenas narrativas de uma história criada por Roy – não sem a participação ativa da menina – e da história do próprio vínculo entre os dois. Como Roy, Alexandria traz a marca do trauma: sua casa fora incendiada e seu pai, morto, por ‘homens irritados’, em seu país de origem, a Polônia. Talvez, também por isso, a odisseia de Roy sobre um grupo de homens, guiados pelo desejo de vingar suas perdas, contra o terrível governante Odious, desperte o interesse de Alexandria.

Há um diálogo constante entre a história contada por Roy e a vivida, pelos dois, no contexto do hospital. Enfermeiros, profissionais, pacientes emprestam seus rostos, vestimentas, relações, enfim, aos personagens do conto fantástico. Mais interessante ainda é perceber que são os próprios dramas de Roy e Alexandria que constituem o fundamento pelo qual se desenrolará o conto. Não somente os dramas atuais, mas também os passados servem como estrutura para a construção narrativa. Enlutado duplamente, Roy se converte no ‘bandido-herói’ redentor, cujo objetivo é ‘vingar’ as perdas impostas por um ‘governante’ perverso e ditador, Odious. A sede de vingança contra Odious é a marca da identificação entre Roy, Alexandria e todos os personagens do grupo – o místico, Darwin e seu macaquinho, o indiano, o escravo e o fabricante de bombas. O conto, que se vai transformando várias vezes no decorrer do filme, começa com o bandido representando o pai de Alexandria, antes de se tornar o próprio Roy.

O desejo de vingança parece constituir uma das formas pelas quais se tentam vivenciar e manejar as experiências de perda. Muitas vezes, ele se associa à fantasia de haver uma razão, um motivo para as perdas, sem a qual, elas não teriam ocorrido. A destruição do ‘motivo’, do causador das perdas, estaria então relacionada à fantasia de restituir uma condição na qual as perdas não mais acontecem. Essa tentativa de manejar o luto, porém, muito mais do que vivenciá-lo e elaborá-lo, consiste numa estratégia de negá-lo, uma vez que, para o psiquismo do vingador, há uma causa a ser eliminada. Entretanto, é justo essa esperança que coloca Roy e Alexandria no percurso de uma jornada que, sendo uma história narrada, desvela uma outra história, a de seus processos psíquicos tentando elaborar as perdas sofridas.

Não à toa, Roy se imagina como um bandido-herói destemido e poderoso. Enfrentar Odious – e embarcar na empreitada de encarar toda intensidade de sentimentos turbulentos e raivosos que lhe tumultuam o psiquismo – exige coragem. Afinal o inimigo é muito ‘perigoso’ – submete os homens qual escravos, destrói relações, florestas; ameaça a existência dos seres vivos, impondo-lhes um sistema opressivo e autoritário de perdas significativas. Ora, o que mais poderia representar Odious se não a mão firme e implacável da realidade a pôr termo aos nossos sonhos e fantasias? Está Roy, ele mesmo, ameaçado de morrer, matando-se, sentindo-se incapaz de fazer frente a tamanha ameaça, revelando-se frágil, por detrás da capa corajosa, forjada de início.

Odious é a realidade implacável. Seu nome sugestivo remete ainda à força do ódio que opera em Roy, no contexto de suas perdas. É o próprio pai, metaforizando o drama de Édipo, cujo destino é odiar e matar o pai e, assim, evitar a perda da mãe. Foi Freud quem nos mostrou o Édipo que habita a todos e quem nos ensinou sobre a melancolia, quando as perdas não se podem elaborar psiquicamente. Aquilo que não pode ser perdido, se instala dentro do próprio ego e é objeto das ambivalências não integradas: uma alta carga de ódio, direcionada à experiência da perda, ataca agora o ego, ameaçando sua existência.

Roy precisará empreender todas as suas faculdades mentais na tarefa de encarar o seu ódio frente à realidade psíquica da perda. E nesse sentido, seus companheiros de jornada parecem representá-las – seu lado místico e mais instintivo; a revolta e o desejo de não estar submetido; sua criatividade; inteligência; seu desejo de reaver a capacidade de amar estão ali reunidos, tentando prover-lhe força, sentido e habilidade para a realização da empreitada.

À medida que a história se desenrola, e com a ajuda da astúcia e curiosidade de Alexandria, vai ficando mais clara, para todos, a relação com os dramas de Roy. E à medida em que ele se vai aproximando dos conflitos, se vão inserindo na narrativa as palavras que contam as emoções de Roy, suas dores, sua desesperança, sua ânsia de sucumbir (antes vivenciada somente nos seus atos suicidas). A entrada de Alexandria na história, filha do herói-bandido, como expressão da construção do vínculo entre os dois, será o fator decisivo para a sobrevivência de Roy no processo. Seu interesse pelo conto, e pela amizade de Roy, possibilita a narrativa das dores dele. Mas é principalmente a relação afetiva entre os dois, o amor que Roy vai descobrindo sentir pela menina, o que o acaba impedindo de matá-la. Quem ama, cuida, e preocupação e cuidado se podem notar na angústia de Roy ao sentir a ameaça de perder a menina.

Quando consegue escolher o ‘amor pela filha’, ao invés do ódio pela figura que representa a perda, Roy pode, finalmente, aceitar a experiência de perder o objeto – e no final, se pode notar que tanto Odious quanto a mulher que o deixou ficam desinvestidos (vemos Odious perdido, ‘bobo’, desprovido de força e importância, enquanto a mulher é recusada em nova tentativa de seduzi-lo). Roy pode agora abdicar do ódio contra si e reorientar seu investimento para a vida, para novos vínculos, representados por ‘sua nova filha’.

Do ponto de vista da psicanálise, a condição de produzir narrativas sobre as experiências mentais favorece a ‘não atuação’ das emoções. Contadas, elas podem ser vivenciadas e pensadas, conferindo ao ego maior capacidade de autonomia frente às duras circunstâncias da vida. E contar a alguém guarda sempre a chance de ter sua história reconhecida e sua capacidade de continuar contando-as, reforçada. A história narrada pelo filme traduz o potencial humano de produzir palavras, mesmo em face a dores psíquicas intensas. No verbo, na história ‘ficam contidas’ todas as humanidades, em seu mais profundo páthos. Narrando-se, pode Roy conter todo o ‘Odious’ que o atormentava, integrando as experiências de perda à história da sua vida, podendo segui-la na direção de novos investimentos. Narrando Alexandria, Roy ajudou a menina a encontrar novas oportunidades de ser ‘a filha que conseguiu salvar o pai diante dos homens com raiva’.

Não nos iludamos, contudo, com o final feliz. ‘The fall’ mostra que há possibilidade de vida, de novos encontros, após a queda. Mas a psicanálise ensina que a dor faz parte da vida e a perda é condição inerente ao amor, ao desejo. Os novos investimentos ficam sempre atrelados a novas quedas, o que inevitavelmente nos põe na marcha de novas aventuras emocionantes.              

  

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