Close é um filme sobre perdas e sobre o modo
como se pode vivenciá-las. A perda do paraíso idílico infantil. A descoberta de
uma realidade social, muito identificada com o período da adolescência: a
atribuição de significados aos nossos corpos e ações, colocando em xeque a
plenitude e o gozo prometidos na infância. Um filme sobre perdas reais,
concretas e traumáticas, interferindo no processo de desenvolvimento psíquico
inerente à elaboração dessas perdas. E sobre a importância de um ambiente
acolhedor de toda a turbulência emocional como condição de favorecimento a
essas elaborações e ao amadurecimento mental.
Na primeira cena, Leo e Remi
brincam. Ao fundo, lindas paisagens campestres. Parecem correr de um inimigo
imaginário. Que inimigo seria esse? Dois amigos inseparáveis, no início de sua
adolescência. O olhar admirado de Leo e sua capacidade imaginativa se emprestam
a ajudar o sono de Remi e suas ansiedades de desempenho marcantes.
Vem o colégio e o inimigo
que ameaçava a dupla começa a mostrar ‘sua cara’. A relação de amizade dos dois
passa a existir dentro de um contexto social distinto de suas casas. Nesse
sentido, passa a ganhar significados diferentes também. Significados que passam
a incomodar Leo. Afinal, quais discursos sobre masculinidade a identidade em
construção de Leo deseja se associar? Quais deseja repelir? Dentro dele, vai
ganhando corpo o conflito: Remi passa a representar características indesejadas,
ligadas à homossexualidade e à fragilidade; ao passo que, o amor, a admiração e
a satisfação, já marcantes na relação dos dois, mantém ainda o seu lugar. A adolescência,
essa nova realidade anunciada pelo colégio, os alcança e atrapalha o gozo de suas
brincadeiras imaginativas.
[Aliás, a chegada de um ‘terceiro’, o
pai, a atrapalhar as relações de gozo com a mãe, nas fantasias da criança,
constitui justo o que chamava Freud de ‘Complexo de Édipo’. Melanie Klein,
por sua vez, destaca o mecanismo da cisão, no qual representações opostas
associadas ao mesmo objeto, são mantidas separadas, como uma forma de lidar (e
evitar) com o conflito].
Talvez devido à cisão, Leo
não consegue verbalizar o conflito, de início. Mas ele é perceptivo nos atos.
Afasta-se de Remi, vai dormir na cama de baixo, deixa de esperá-lo no caminho
da escola. E Remi sente. Reage com sofrimento e raiva. A briga no quarto parece
dar vazão aos sentimentos hostis, que se vinham cultivando, latentes, entre
eles. A extensão e impacto do sofrimento de Remi são mostrados nos
‘trancamentos perigosos’ no banheiro, nos sintomas físicos, na recusa
alimentar. Remi já tinha problemas e precisava ainda prolongar a infância,
precisava ainda de mais tempo de contato com esse outro olhar - admirador,
imaginativo e tranquilizador - que podia experimentar em Leo.
Remi não suporta a separação.
É abrupta demais para ele essa nova realidade adolescente, conflitiva. Não se
sente preparado. E sua morte, seu suicídio, parece uma maneira de comunicar que
não pode e não vai vivê-la. Como uma forte recusa em abandonar os ideais do
gozo infantil, da ‘relação inseparável’ que o ‘Complexo de Édipo’ passa a
ameaçar.
É interessante pensar como o
filme debate as diferentes formas de vivenciar ‘a perda da infância’, ‘a perda desse
olhar valoroso sobre si’. Leo, não sem ansiedade, sob forte conflito, cinde e
projeta a ameaça em Remi, buscando encontrar um ‘novo olhar valoroso’ em outras
relações – no hóquei, por exemplo. Remi não tem a mesma condição psíquica
interior para cuidar da perda. Tanto que, o conflito adolescente nem aparece em
Remi. Sente-se tão dependente desse olhar e dessa relação da infância, que as
ausências de Leo são sentidas no próprio corpo, de um jeito intolerável.
Concretamente, ‘não pode engolir nem digerir’ essa realidade, e a ataca. Sua necessidade
de prolongar a infância reflete a ausência de condição interna frente à perda e,
ainda, a necessidade de um outro, de fora, a lhe oferecer essa condição.
Paralisada a capacidade imaginativa e expressiva de Leo, no contexto do manejo
das ansiedades próprias do amigo, Remi está desamparado. Como a perda é
impossível, o ‘trabalho do luto’ não se processa. Ele não pode encontrar ‘novos
outros’, ‘novas formas de relação com a realidade, com Leo’.
A fragilidade de Remi e,
mais ainda seu suicídio, impõem a Leo reforço substancial de suas ansiedades e
conflitos. O impacto da morte do jovem parece dividir o filme em dois – o
expectador também sente ‘o golpe’. Agora Leo está a enfrentar uma perda
traumática. Passamos a acompanhá-lo em seu percurso e tentativa de elaborar
essa perda. É nesse sentido que Leo se vai mostrando, cada vez mais, parecido
com Remi. Faz xixi na cama, passa a usar o hóquei como instrumento de
autoagressão, busca no irmão um outro para cuidar de seu sono. ‘Tornar-se Remi’
pode ser uma maneira de suprir sua ausência. Ao mesmo tempo, parece inevitável
que Leo expresse, através de seus atos, sua fragilidade e pedido de ajuda ao
outro: suas emoções são tão intensas que ‘extravasam’ pelo corpo.
Outro aspecto interessante
do filme é observar a sequência narrativa das cenas, o ritmo do percurso do ‘trabalho
do luto’, em Leo. Seu contato progressivo, representado principalmente pelos
momentos nos quais evita, mas também nos que busca, a mãe de Remi, dá conta da
dimensão da ambiguidade, da ansiedade sentida no encontro com a perda.
Em particular, a capacidade
empática do irmão vai ajudando Leo a cuidar das angústias que lhe tiram o sono.
O abraço acolhedor da mãe, demonstrando não temer e compreender as
manifestações de raiva do garoto, compõe outro instante representativo da
condição de suas relações oferecerem-lhe suporte para vivenciar as emoções
turbulentas. Afinal, em seu processo de constituir-se, de buscar saber quem é, o
adolescente Leo, marcado pelo trauma, está bastante assustado sobre o que pode
ser dito da sua identidade. O ambiente acolhedor e compreensivo ajuda-o a se
ver de forma menos ameaçadora e, em consequência, a se expressar com mais
liberdade.
O tempo vai passando e no
ritmo do trabalho familiar – a plantação, o cultivo, a colheita - Leo vai logrando
elaborar suas dores, animando-o a continuar tentando se aproximar mais ainda
delas.
A cena do carro, com a mãe
de Remi, inaugura o clímax do filme, momento decisivo dessa aproximação. Leo
enuncia verbalmente sua culpa, pela primeira vez. Um sentimento de culpa visto
apenas, até então, no sofrimento mental de Leo, no seu comportamento
autoagressivo.
Ali, no carro, estão os dois
identificados com uma busca: um motivo, uma explicação que os condene ou os
absolva. Talvez por isso, a resposta impulsiva da mãe de Remi – ‘saia’ – seja a
primeira possível: ela acreditara na explicação que Leo lhe oferecia; era o que
buscava; não pôde, por um instante inicial, deixar de acreditar.
Mas foi por um instante só. Ela
vai então em busca, encontra Leo assustado, armado com um galho fino, frágil
escudo esperando ser finalmente castigado. Como a mãe de Leo, ela não se
assusta. Com um abraço, ela o alcança (um abraço que nunca pôde alcançar Remi).
E ambos desfrutam daquele abraço, grande marco representativo, no filme, do
encontro com o outro que compreende e torna a dor mais humana, que torna o luto
possível.
As últimas cenas dão
testemunho do trabalho do luto em conclusão. O que estava quebrado – o ‘braço’
de Leo – se cura. A vida pode seguir e a casa desocupada anuncia a mudança na
família de Remi. E Leo pode diminuir o passo e andar, mais calmamente, por
lindas paisagens, na direção do futuro.
Antes, porém, ele olha para
trás, para aquele inimigo imaginário do qual fugia, correndo, nas brincadeiras.
Parece fitar a própria plateia, como se agora pudesse encarar o inimigo – o ‘olhar
social’ – com menos medo. Close também é um filme sobre os ‘olhares’ e como
eles são importantes no processo de constituição de nossas identidades. A ponto
de às vezes não sermos capazes de sobreviver sem eles. E a ponto de se fazer
necessário todo um trabalho doloroso de elaboração das perdas da infância para
buscarmos, com mais coragem e autonomia, outros novos olhares.
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