Esses dias, um
colega fez referência a certa conversa com uma mulher transexual. Na conversa,
surgiu a questão de se as transexualidades, feminina e masculina, demarcavam
nova classe de gênero humano ou se podiam encaixar-se, segundo convencional
divisão social, entre homens e mulheres. A questão encontrou sentido em uma
discussão recente envolvendo o mundo do voleibol. Tiffany, jogadora oposta do
time do Bauru, estreou na superliga feminina, no último dia 10 de dezembro de
2017, como a primeira transexual a atuar no campeonato nacional mais importante
da modalidade. E sua boa atuação impressiona: Tiffany apresenta média de pontos
por partida superior à de Tandara, oposta do Osasco e da seleção brasileira,
até então a melhor atacante da competição. A discussão entre expectadores,
jogadoras, técnicos, profissionais ligados à medicina esportiva, entre outros,
gira em torno de se o passado masculino de Tiffany conferiria a ela vantagens
adicionais, em comparação com as demais jogadoras cis.
Essa é uma
discussão do momento. Vem ganhando força agora no voleibol, mas se espera que
se desenvolva também em outras esferas. E, com o aumento gradual da
visibilidade trans, galgado a duras
penas pela luta popular e expresso na adoção crescente de políticas inclusivas,
a inserção trans na vida cotidiana,
qualquer que seja o cenário considerado, vem se fazendo não sem produzir
incômodos, questionamentos, inseguranças, dúvidas. Trata-se de fenômeno social
de maior potencial transformador. Transformações, mudanças, se dão, como
se sabe, ao fundo de muitos embates, disputas, crise. O debate em relação à
Tiffany talvez reflita a crise social, representada pela condição transexual,
agora no âmbito do esporte. Faz-se interessante e necessário analisar como os
questionamentos levantados acerca da performance da atleta expressam essa crise
e prenunciam modificações profundas no binômio gênero-esporte.
Então,
seguindo o problema, haveria diferenças de desempenho entre esportistas
transexuais, e seus pares cis-genêro? Assim coloca-se, pois se pode levantar a
mesma dúvida sobre os transexuais masculinos e os homens cis. E não deve ser por acaso que a discussão se tenha promovido
pelo lado feminino. É principalmente aí onde a condição trans ameaça a ordem social estabelecida. Entre os homens, há o
pressuposto compartilhado da superioridade atlética dos cis sobre os trans, para
os quais se manteria o habitual estado de marginalidade, portanto. A resposta
afirmativa à pergunta, como muitos supõem, traz o risco de, num futuro não tão
distante, as mulheres cis serem
preteridas em relação às trans, na
prática de vários esportes de força e agilidade. Os clamores recentes de
algumas jogadoras denunciam a situação de ameaça vivida. São clamores
compreensíveis e legítimos. Lembram habitantes de uma localidade qualquer experimentando
a expectativa de imigração em massa de estrangeiros. Temem por seus empregos;
pela perda de espaços também duramente conquistados (a ocupação, por mulheres,
de espaços, antes exclusivamente masculinos, constitui fenômeno recente da
história).
Daí que também
no voleibol, a transexualidade se apresente como um questionamento às
fronteiras de gênero. Afinal, o que é ser mulher? O que é ser homem? Se antes
se respondiam a estas perguntas a partir dos genitais e, em casos específicos,
através de testes genéticos, hoje o problema é percebido cada vez menos como um
destino biológico pré-determinado e cada vez mais como a ideia de um constructo
representacional, influenciado pela evolução histórica da sociedade e seus
produtos culturais. Compreende-se, então, um sujeito nascido com pênis e
cromossomo Y identificar-se com formas representativas – corpo e papeis de
gênero – daquilo que a cultura define por ‘feminino’, autodenominando-se
‘mulher’, e vice-versa. Embora a anatomia configure a base na qual um sujeito e
sua identidade irá se constituir, ela perde a primazia em determinar a qual
gênero o indivíduo pertence, podendo, inclusive ela, sofrer alterações
estruturais para ajustar-se à ideia de identidade construída no âmbito da
representação mental. Sendo assim, a mudança de um vértice biológico para um
vértice psicossocial amplia consideravelmente a noção de gênero, confere-lhe
maior diversidade e complexidade, ao abarcar, junto às pessoas cis, também as pessoas trans. Mas questionar e alargar
fronteiras, tão profundamente delimitadas pelo homem, ao longo de todo seu
desenvolvimento filogenético, nada poderia produzir senão contrarreações. No
voleibol, as expressões de resistência à integração de Tiffany às jogadoras, na
superliga feminina, ganham mais intensidade ainda frente à ameaça de que a
jogadora transexual, por seu passado masculino, admita potenciais atléticos não
compartilhados por suas congêneres cis.
Diferenças de desempenho não são algo incomum no esporte; do contrário,
configuram seu real motivo. Porque existem diferenças, elas podem ser aferidas
em seu êxito ou fracasso. Mulheres baixas, por exemplo, exibem nítida
desvantagem em relação às mais altas, fato corrente na atividade
voleibolística. Não se notam protestos das baixinhas por espaço, pois, afinal,
todas pertencem ao mesmo grupo, o das mulheres, e suas variações individuais
estão reconhecidas e naturalizadas. Já no caso em evidência, fica mais
interessante sublinhar o especificador trans,
convertendo-o em uma espécie de gênero ou
subgênero a parte, a margem, como
se intui das propostas surgidas, na discussão, quanto à criação de uma ‘cota
trans’ – o estabelecimento de um quantitativo restrito ‘permitido’ de jogadoras
trans por time – ou mesmo quando se sugere a realização de uma competição
‘exclusiva’ para jogadores transexuais. A questão inicial do texto, sobre
segregar as transexualidades das classes convencionais de gênero, pode ter sua
resposta sujeita às conveniências de cada um, no lidar com essa chamada ‘crise
de fronteiras’ da contemporaneidade.
Mas, a
despeito da superação do vértice biológico na problemática do gênero, superação
esta que define a transexualidade, resta ainda a questão do corpo. Vencido, o
corpo guarda ainda crucial relevância na necessidade, tão premente entre
transexuais, de que ele reflita, na carne, os ideais de gênero configurados dentro
do psiquismo. Cirurgias de mudança de sexo, cirurgias plásticas, tratamentos
hormonais, todos se dispõem à realização deste êxito. No esporte, o corpo ocupa
papel central também no desempenho de habilidades físicas de força, precisão e
velocidade. A inclusão de atletas transexuais em modalidades de alto
rendimento, sendo um processo recente, suscita dúvidas cujas respostas a ciência
ainda se prepara para esclarecer. O Comitê Olímpico Internacional (COI) admite
hoje que, para uma atleta trans almejar o ingresso em categorias femininas, ela
precisa autodesignar-se e ser reconhecida, socialmente, como do sexo feminino,
e ter níveis de testosterona inferiores a 10nmol/L, por pelo menos 12 meses de
hormonioterapia. Falta, no entanto, consenso entre os especialistas quanto aos
critérios defendidos pelo COI. No contexto do impacto da transexualidade sobre
os mais diversos aspectos da atividade humana, novos estudos e diretrizes já
vêm sendo requeridos para, afinal, se responder à pergunta do que se irá
entender por ‘mulher’ no esporte. Talvez provoque surpresa o fato da não
exigência da cirurgia de transgenitalização, em categorias femininas, por
exemplo.
Controvérsias
e dúvidas a espera de resoluções. Decerto, a discussão gerada a partir do
pioneirismo de Tiffany parece colocar à sociedade um futuro impreciso e
potencialmente tão transformado que talvez se torne difícil reconhecê-lo como
possível. É este o sentido das mudanças, como também o foi a emancipação
feminina do século passado: apresentar um novo; um novo subversor da ordem
social, que deixa os homens órfãos de seu passado seguro e cheio de certezas.
Ser homem, ser mulher; masculinidade, feminilidade; essas ideias são produtos
inacabados e a transexualidade escancara a transitoriedade dos conceitos de
gênero, como talvez nenhum outro fenômeno o tenha feito ao longo da história. E,
afinal, sendo este o estado de coisas, como deixar de sentir uma ponta de medo;
ou como deixar de se identificar, ao menos em parte, com os clamores de algumas
jogadoras, ao sentirem seus lugares ameaçados, é uma questão que bem expressa o
conflito.
É encanadora sua escrita. Adentrei ao seu mundo ao visualizar a análise da música " De Onde Vem A Calma, LOS HERMANOS", certamente será um passo em meus dias as leituras que desfrutarei, dada por sua escrita e sua capacidade racional de fotografar os fatos abordados aqui. Parabéns
ResponderExcluirObrigado. Temos textos novos depois de alguns anos.
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