quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Todo o Sentimento
(Chico Buarque e Cristóvão Bastos)
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.
Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.
“Todo o Sentimento” é uma canção profunda e de uma melancolia conformada que impressionam. Certamente o tema central da obra concentra-se na força devastadora de um tal “Tempo” sobre todo encantado amor de dois personagens em cena. Um deles é o autor, atormentado por uma previsão de fim do sentimento dele pela outra pessoa da música. É ele quem no decorrer das estrofes, irá prevenir-se da dor da continuidade de uma relação sem amor para no futuro reencontrar um outro “Tempo” em que seu sentimento seja novamente possível. Sobre essa temática soam as notas de “Todo o Sentimento”.
Desde os primeiros versos percebe-se a necessidade preemente de o autor viver o mais intensamente possível todo seu sentimento nos instantes que “lhe restam” com a pessoa amada. Sim, que “lhe restam”, pois o decorrer do texto mostra sua crença nítida na força de ‘algo’ capaz de desfazer esse sentimento. Ele espera não dormir até que termine o tempo... ele puxa para si a responsabilidade de amar com ardor, aproveitando cada momento sem pressa, como diz em “te amando devagar e urgentemente”... espera aproveitar ao máximo esses instantes e pretende poder dar à pessoa amada toda a cota de felicidade que puder dar para si, decerto porque ama essa pessoa e decerto também porque antevê o fim - por isso talvez queira recompensá-la desde já por um sofrimento futuro inevitável que, por ora, a outra pessoa não advinha.
Sequencialmente ele fala de um “Tempo”... um “Tempo” que desfez. O autor do texto crê de forma inexorável que o amor, o sentimento, não dura para sempre. Ele sucumbe à força de um “Tempo” – aqui representando possivelmente toda uma série de obstáculos que a rotina e a vida a dois impõem à sobrevivência de uma relação. Talvez outras experiências amorosas anteriores do autor tenham-no levado a identificar-se com essa ideia interior. Mas ele não deixa margem para dúvidas: é inevitável o fim do sentimento e numa intenção solitária, na qual talvez nem ele mesmo acredite tanto, ele diz querer um “Tempo” que refaz... um “Tempo” que coloca no corpo o sentimento outra vez.
Na segunda parte da obra ele reafirma o ‘querer’ até o fim, quando o amor cairá, doente. É aí, ao que parece, que ele toma a resolução de partir mais cedo: ir embora a tempo de soltarem-se os laços que os fazem presos um ao outro. Sim, pois a essa altura, para o autor, foi-se embora o sentimento... o amor caiu doente e ficaram possíveis formas de vínculo que não o “sentir afeto”. Talvez aqui venham à memória algumas estórias de casais que ficam juntos anos e anos por questões de costume, às vezes um senso de responsabilidade demasiado para com a pessoa ou família, outras vezes por convenção social, sentimentos de piedade para com a outra pessoa, filhos e tantos outros motivos perpetuadores de um relacionamento sem amor. De fato, esses tipos de relação existem. Entretanto entra aqui uma indagação importante: não estaria o autor antecipando um fim por um certo medo de que não seja ele mas ela, a outra pessoa, quem ponha o ponto final no relacionamento? Não seria o amor da outra pessoa q ele teme acabar no futuro? Teriam sido decepções amorosas anteriores quem o teriam levado a pensar que todo amor termina? Não sabemos nós identificar na vida cotidiana bonitas estórias de pessoas que se amam até os dias finais de suas vidas?
Prefere o autor, pois, desistir e perder a pessoa amada, para quem sabe lá, depois, em um tempo sem mágoas ou rancores, um “tempo de delicadeza”, ele poder vivenciar uma forma de amor totalmente passional mas sem riscos. Uma forma de amor na qual ele somente espreita, apenas segue fascinado, encantado pela outra pessoa, sem estar verdadeiramente junto... sem temer a possibilidade de sofrer uma desilusão forte (ele já é, antes mesmo, desiludido)... talvez algumas pessoas vejam aqui como se o autor desejasse um novo recomeço... como se naqueles versos do princípio “Pretendo descobrir/ No último momento/ Um tempo que refaz o que desfez/ Que recolhe todo sentimento/ E bota no corpo uma outra vez” estivesse a esperança agora declamada no fim da música... como se ele tentasse de novo amar e ser amado do lado da mesma pessoa a quem abandonou em tempo remoto. Pode ser por aí... é fato. Mas creio que, se foi essa a intenção de quem escreveu a música, não ficou totalmente claro nesse sentido. Parece que o personagem se conformaria em viver só admirando, em seguir assim... sem a intensidade, sem a relação de antes... só perto... só encantado.
Vale ressaltar que as características do autor da música não se referem diretamente aos compositores, claro. Associa-se ao personagem por eles encarnado para compor a temática da canção. Óbvio que todo processo interpretativo é sujeito à viéses de caráter pessoal de quem interpreta e, devem ser compreendidos assim aqui, embora a tentativa inicial seja a de buscar a lógica correta do entendimento da obra pelo texto. De resto, essas são as minhas impressões dessa música fantástica, que tem assinatura clara de Chico... só podia ser dele... desconheço outro compositor que fale de sentimentos tão profundos de um jeito mais poético.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
A principio, gostaria de parabenizar o autor do blog pela ideia criativa e pela brilhante interpretação dada a música citada. Mais que uma interpretação...um mergulho na intimidade de um desconhecido que parece tão próximo pelo domínio de palavras bem postas e sensibilidade ao descrever sentimentos tão profundos e fatos da vida que só um, igualmente poeta, seria capaz. Um psicólogo, psicanalista, talvez....
ResponderExcluirAcredito no sentimento da letra, tal como na melodia desta, que a completa como se não fosse preciso conhece-la para senti-la. Acredito também que o tema central da música seja pragmático aos olhos dos realistas e romantico aos olhos dos sensiveis, seguidores da máxima "Que seja eterno enquanto dure"...
Mais uma vez, parabenizo pelo blog e aguardo por mais interpretações e viagens nas estórias cantadas e contadas por esses grandes.
Marcela Magalhães.
Identifico-me com esta música e não a vejo tal qual fora descrito pelo blog. Acabei de perder o amor da minha vida, ele realizou a passagem para uma outra dimensão e sinto o coração destroçado. Interpreto a música como a história de um grande amor, que na iminência de uma morte anunciada, em um desespero para que se aproveite intensamente cada momento, até que a separação chegue e, após o tempo de cada um, haja um reencontro em uma eternidade, possivelmente, aonde não haja nenhum questionamento, mas, tão somente, a vivência do grande amor.
ResponderExcluirPerdi minha mãe recentemente...e também pude associar esta brilhante composição ao estado emocional que estou vivenciando.
ExcluirApaixonante interpretação! Fico com a segunda alternativa quanto ao final da música: a que aponta um novo recomeço, sendo o "tempo da delicadeza" de um amor mais maduro e, a despeito do encantamento presente, menos passional.
ResponderExcluirApaixonante interpretação! Fico com a segunda alternativa quanto ao final da música: a que aponta um novo recomeço, sendo o "tempo da delicadeza" de um amor mais maduro e, a despeito do encantamento presente, menos passional.
ResponderExcluirEsta musica mostra a dor de se perder um sentimento tão raro e se for verdadeiro tanto pior.
ResponderExcluirO tempo,dependendo das relações pode cristalizar essa relação ou ruir a mesma.Infelizmente.
Brilhante interpretação. A música diz respeito ao fim da relação de Chico e Marieta Severo, e retrata exatamente a separação, o respeito e a admiração que um até hoje tem pelo outro.
ResponderExcluir